HomeUniverso LiterárioContosConto | As Marcas do Hexagrama

Conto | As Marcas do Hexagrama

Nas profundezas do Bosque das Correntes Celestiais, onde o tempo escorre entre dimensões como águas mágicas, dois mestres ancestrais se encontram para um duelo que transcende o próprio conceito de vitória.

O Mago das Águas Profundas, guardião da fluidez e da adaptação, enfrenta o enigmático Geômetra Sombrio, arquiteto da ordem imutável. Sobre o tabuleiro vivo Qí Pán, não são apenas peças que se movem, mas realidades que se moldam.

Quando água e forma se encontram em perfeito equilíbrio, o proibido Hexagrama Vivo desperta, ameaçando rasgar o próprio tecido da realidade. Agora, antigos adversários precisam fazer uma escolha que ecoará através das eras:

“Não é o poder que define a vitória. É o entendimento entre a pedra e o rio.”

O Primeiro Hexa
O Primeiro Hexa

O Primeiro Hexa

Na alvorada de uma dimensão espelhada, onde o tempo escorre entre as fendas do espaço como águas mágicas, o Qí Pán (棋盤) ressurge — um tabuleiro vivo de correntes cristalinas entrelaçadas em padrões hexagonais. As águas do Rio de Jade, normalmente serenas e sussurrantes, agitavam-se em ondulações inquietas, como se pressentissem a iminente colisão de forças ancestrais.

O Bosque das Correntes Celestiais, com suas árvores luminescentes que pareciam guardar segredos tão antigos quanto o próprio tempo, emitia um brilho azulado que se refletia nas águas. Entre as colunas submersas do Templo das Correntes Eternas, o Mago das Águas Profundas emergiu, sua silhueta recortada contra o céu crepuscular.

Envolto em vestes que ondulavam como marés, o Mago sentia o sussurrar da própria essência do mundo fluindo sob seus pés. Sua barba branca e longa dançava ao sabor de uma brisa imperceptível, enquanto seus olhos, profundos como abismos oceânicos, contemplavam o horizonte. Em sua mão direita, uma espiral aquática dançava, refletindo a luz das estrelas que começavam a pontilhar o firmamento.

— As correntes estão inquietas hoje — murmurou o Mago para si mesmo, sua voz ressoando como o murmúrio de um riacho distante. — Algo perturba o Fluxo Infinito.

À sua frente, entre sombras que desafiavam toda lógica, uma figura encapuzada materializou-se. O Geômetra Sombrio se ergueu — seus olhos como eclipses congelados brilhavam com uma intensidade sobrenatural sob o capuz ornamentado com símbolos arcanos. Suas mãos, de um azul profundo e marcadas por linhas geométricas precisas, desenhavam sigilos invisíveis no ar.

— Mago das Águas Profundas — pronunciou o Geômetra, sua voz metálica e precisa como o tique-taque de um relógio cósmico. — Ou deveria chamá-lo de Yu, o Grande? Aquele que domou as águas no Reino Antigo da Terra?

O Mago estreitou os olhos, surpreso pela menção de seu nome ancestral.

— Nomes são como as águas, Geômetra. Fluem e mudam com o tempo. Mas você… você continua o mesmo. Rígido. Imutável. Obcecado por padrões e formas fixas.

O Geômetra inclinou levemente a cabeça, um sorriso enigmático desenhando-se em seu rosto azulado.

— A imutabilidade é perfeição, Mago. O caos das marés é um erro da criação. Um mundo verdadeiramente perfeito é aquele onde cada elemento ocupa seu lugar exato, onde nada é incerto.

— E é por isso que você veio ao Bosque das Correntes Celestiais? — indagou o Mago, sua voz agora mais grave, carregada de preocupação. — Para impor sua visão de perfeição estática sobre o Fluxo Infinito?

O Geômetra ergueu as mãos, e entre seus dedos, símbolos geométricos dourados começaram a brilhar.

— Vim para corrigir um desequilíbrio. O Fluxo Infinito, como você o chama, é uma anomalia que precisa ser contida, estruturada. Com seu poder em minhas mãos, poderei erguer o Grande Diagrama Sombrio, um sistema perfeito onde cada elemento permanecerá em seu devido lugar… para sempre.

O Mago sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era a primeira vez que enfrentava o Geômetra, mas nunca antes seu adversário havia revelado tão claramente suas intenções.

— Você não entende, não é? — disse o Mago, sua voz agora suave como a névoa matinal. — A água não pode ser contida permanentemente. Ela encontra caminhos, adapta-se, transforma-se. É sua natureza.

— Uma natureza falha — retrucou o Geômetra com desdém. — Que pode e será corrigida.

O Cubo que Não Afunda
O Cubo que Não Afunda

O Cubo que Não Afunda

O ar entre os dois mestres crepitava com energia mágica. As águas ao redor do tabuleiro Qí Pán começaram a se agitar mais intensamente, formando pequenos redemoinhos que dançavam ao redor dos pés do Mago.

Com um gesto rígido e preciso, o Geômetra Sombrio retirou de suas vestes um objeto negro e brilhante — o Hēi Zǐ (黑子), um artefato de obsidiana negra que pulsava com energia contida. Seus dedos se fecharam ao redor do objeto, e com um movimento calculado, ele o lançou sobre o tabuleiro.

— O primeiro lance é meu, Guardião das Correntes — declarou o Geômetra, sua voz ecoando com autoridade.

O Dado Mestre não afundou ao tocar a superfície aquática do Qí Pán, mas pairou sobre o fluxo, gerando ondas estáticas que se expandiam em padrões hexagonais perfeitos. Onde as ondas tocavam, a água se imobilizava momentaneamente, como se congelada em cristal.

— Veja como a ordem se impõe sobre o caos — comentou o Geômetra, um brilho de satisfação em seus olhos. — Cada gota d’água agora obedece a um padrão previsível, uma equação perfeita.

O Mago das Águas Profundas observou em silêncio, seu rosto impassível, mas seus olhos revelavam uma profunda concentração. Ele podia sentir o impacto da jogada do Geômetra — o rio, que sempre sussurrara segredos fluidos em sua mente, agora estava parcialmente silenciado, como se uma parte de sua consciência tivesse sido aprisionada.

— Você sempre confundiu ordem com rigidez, Geômetra — respondeu finalmente o Mago, sua voz calma como águas profundas. — Há ordem na fluidez, há padrões no movimento. Observe.

Uma espiral aquática começou a dançar na palma da mão do Mago, crescendo e brilhando com luz própria. De suas vestes, ele retirou o Bái Zǐ (白子), um artefato de jade branco que resplandecia como a espuma das ondas sob o luar.

— A água não luta contra a pedra — continuou o Mago. — Ela a contorna, a abraça, e com o tempo, a transforma.

Com um movimento fluido, quase dançante, o Mago lançou seu Dado Mestre sobre o tabuleiro. Onde o Bái Zǐ tocou a superfície, as águas voltaram a fluir, dissolvendo os padrões rígidos impostos pelo Geômetra, criando novos caminhos de corrente que serpenteavam entre os pontos fixos.

O Geômetra estreitou os olhos, sua postura rígida traindo um leve desconforto.

— Interessante estratégia, Mago. Contornar em vez de confrontar diretamente. Típico de quem teme o embate direto.

O Mago sorriu serenamente.

— Não confunda adaptabilidade com medo, Geômetra. A água não teme a pedra; ela simplesmente reconhece que há mais de um caminho para alcançar seu destino.

— E qual seria esse destino? — questionou o Geômetra, seus dedos já preparando o próximo lance.

— O equilíbrio — respondeu o Mago. — Não a estagnação que você busca, mas o equilíbrio dinâmico, onde todas as forças encontram seu lugar natural no fluxo constante da existência.

O Geômetra riu, um som metálico e frio.

— Poéticas palavras para mascarar a ineficiência. O verdadeiro equilíbrio só existe na perfeição geométrica, onde cada elemento permanece exatamente onde deve estar.

— Então é isso que veremos hoje — concluiu o Mago, seus olhos refletindo as águas agitadas do tabuleiro. — Se o destino do mundo será fluir eternamente ou congelar em sua perfeição estática.

O duelo não era apenas de poder — era de forma contra fluxo, de cálculo contra intuição, de rigidez contra adaptabilidade. E enquanto os dois mestres se encaravam sobre o tabuleiro vivo, o próprio Bosque das Correntes Celestiais parecia conter a respiração, aguardando o desenrolar daquele embate ancestral.

As Correntes se Dividem
As Correntes se Dividem

As Correntes se Dividem

Cada jogada transformava o campo de batalha: não apenas peças eram colocadas, mas realidades eram moldadas. O tabuleiro Qí Pán pulsava com vida própria, as correntes cristalinas se entrelaçando e separando conforme os Dados Mestres eram posicionados estrategicamente pelos dois oponentes.

O Geômetra Sombrio movimentava-se com precisão calculada ao redor do tabuleiro, seus gestos tão exatos quanto as formas geométricas que criava. Seus olhos, fendas luminosas sob o capuz, analisavam cada possibilidade, cada intersecção, cada padrão potencial.

— Você percebe, Mago, como cada movimento meu cria ordem? — disse o Geômetra, posicionando mais um Hēi Zǐ no tabuleiro. — Observe como as águas se submetem à estrutura que imponho.

De fato, onde os Dados Mestres negros do Geômetra tocavam, pequenas ilhas de rigidez emergiam, conectando-se em padrões crescentes. Cada novo ponto era um avanço, um passo a mais no cercamento do território do Mago.

Os artefatos encantados ao redor do tabuleiro começaram a vibrar em resposta à intensidade do duelo. As bússolas elementais giravam descontroladamente, suas agulhas incapazes de fixar uma direção em meio ao turbilhão de energias conflitantes. Os Dados Previsores, dispostos em círculo ao redor do Qí Pán, brilhavam com destinos possíveis, suas faces mudando constantemente como se tentassem acompanhar as infinitas possibilidades que se desdobravam.

O Mago das Águas Profundas, ao contrário de seu oponente, movia-se com a fluidez de uma onda, seus gestos suaves e circulares. Seus olhos, profundos como oceanos, não se fixavam em pontos específicos, mas absorviam a totalidade do tabuleiro, vendo padrões onde outros veriam apenas caos.

— A ordem que você impõe é artificial, Geômetra — respondeu o Mago, sua voz ressoando como o murmúrio de um rio distante. — Observe como a água encontra caminhos entre suas barreiras.

Com um movimento gracioso, o Mago posicionou seu Bái Zǐ em uma intersecção aparentemente insignificante. No entanto, assim que o Dado Mestre tocou a superfície, correntes de água começaram a fluir ao seu redor, contornando as estruturas rígidas do Geômetra, infiltrando-se em espaços vazios.

— Você desperdiça seu potencial com essa… adaptabilidade — comentou o Geômetra, pronunciando a última palavra como se fosse uma ofensa. — Pense no que poderíamos criar juntos se você abandonasse essa obsessão com o fluxo e abraçasse a perfeição da forma fixa.

O Mago ergueu uma sobrancelha, genuinamente curioso.

— E o que seria esse “nós”, Geômetra? Desde quando considera uma aliança?

O Geômetra fez uma pausa, seus dedos pairando sobre o próximo Dado Mestre que pretendia posicionar.

— Somos os últimos de nossa espécie, Mago. Os últimos verdadeiros Controladores. Os outros… são meros aprendizes brincando com forças que mal compreendem. — Sua voz baixou para quase um sussurro. — Juntos, poderíamos reescrever as leis fundamentais deste reino. Você com seu domínio sobre o fluxo, eu com minha compreensão da forma. Imagine a perfeição que poderíamos alcançar.

Por um momento, o Mago pareceu considerar as palavras de seu adversário. Seus olhos se perderam em contemplação, como se vislumbrasse o futuro proposto pelo Geômetra.

— A perfeição que você busca — respondeu finalmente — é estéril, Geômetra. Um mundo sem mudança é um mundo sem vida. Sem crescimento. Sem possibilidades.

O Geômetra suspirou, um som que lembrava o vento passando por cavernas vazias.

— Então continuaremos como sempre fomos. Adversários eternos.

— Não adversários — corrigiu o Mago com um sorriso gentil. — Contrapontos. Como a maré alta e a maré baixa. Ambos necessários para o equilíbrio do todo.

Enquanto o Mago busca conexão e fluidez, o Geômetra erguia muros invisíveis de lógica pura, desenhando cercos como armadilhas matemáticas. Cada movimento era uma declaração filosófica, cada posicionamento de Dado Mestre, uma afirmação sobre a natureza fundamental da realidade.

A Inversão da Maré
A Inversão da Maré

A Inversão da Maré

À medida que o duelo avançava, o Mago das Águas Profundas começou a sentir a pressão das estratégias do Geômetra. Os padrões hexagonais criados por seu oponente se expandiam, cercando e limitando o fluxo das correntes que o Mago controlava. Era como se o próprio Bosque das Correntes Celestiais estivesse sendo gradualmente aprisionado em uma rede de cristal geométrico.

O Geômetra Sombrio observava com satisfação crescente o avanço de sua estratégia.

— Veja como suas correntes se retraem, Mago — comentou, um tom de triunfo mal disfarçado em sua voz metálica. — Mesmo a água mais poderosa eventualmente encontra barreiras que não pode transpor.

O Mago permaneceu em silêncio, sua expressão serena apesar da situação aparentemente desfavorável. Seus olhos, no entanto, refletiam uma concentração intensa, como se estivesse escutando vozes que apenas ele podia ouvir.

— O silêncio é sua admissão de derrota? — provocou o Geômetra, posicionando mais um Hēi Zǐ, completando um cerco particularmente engenhoso que isolava uma porção significativa do território do Mago.

— Não confunda silêncio com rendição, Geômetra — respondeu finalmente o Mago, sua voz calma como águas profundas. — Estou escutando.

— Escutando o quê? — indagou o Geômetra, genuinamente intrigado.

— As memórias da água — disse o Mago, fechando os olhos por um momento. — Cada gota que flui pelo Qí Pán carrega histórias de eras passadas, de batalhas antigas, de vitórias e derrotas que o tempo já esqueceu.

O Geômetra riu, um som frio e cortante.

— Poesia não vencerá este duelo, velho amigo. Apenas a precisão matemática e a estratégia impecável determinarão o vencedor.

O Mago abriu os olhos, e havia neles um brilho renovado, como o reflexo da lua em águas calmas.

— Você está certo em um aspecto, Geômetra. Este duelo não será vencido com palavras… mas com isto.

Pressionado pela estratégia implacável de seu oponente, o Mago mergulhou mais fundo em sua essência líquida. Com um gesto lento e deliberado, ele ergueu ambas as mãos acima do tabuleiro, e as águas ao redor começaram a se agitar, primeiro suavemente, depois com intensidade crescente.

— O que está fazendo? — perguntou o Geômetra, uma nota de preocupação infiltrando-se em sua voz usualmente controlada.

— Invoco a Maré das Lembranças — anunciou o Mago, sua voz agora ressoando com poder ancestral. — Uma corrente que flui não apenas através do espaço, mas também do tempo.

As águas do tabuleiro começaram a brilhar com uma luz azul-prateada, e padrões que lembravam constelações formaram-se em sua superfície. Era como se o próprio céu noturno estivesse refletido nas correntes cristalinas do Qí Pán.

— A Maré das Lembranças? — repetiu o Geômetra, seus olhos fixos no fenômeno que se desenrolava diante dele. — Isso é… impossível. Essa técnica foi perdida na Queda da Primeira Era dos Encantamentos.

Um sorriso enigmático desenhou-se nos lábios do Mago.

— Nada se perde verdadeiramente, Geômetra. Especialmente para aqueles que sabem escutar as histórias que a água conta.

Com um movimento fluido, o Mago posicionou seu próximo Bái Zǐ no centro de um dos cercos criados pelo Geômetra. Ao tocar a superfície do tabuleiro, o Dado Mestre branco não apenas quebrou o padrão geométrico ao seu redor, mas também enviou ondas de energia que dissolveram previsões e quebraram padrões em todo o Qí Pán.

O Geômetra hesitou, visivelmente perturbado. Pela primeira vez desde o início do duelo, sua geometria perfeita sofria erosão. Os padrões hexagonais que havia criado com tanto cuidado começavam a se desfazer, como castelos de areia diante da maré crescente.

— Isso é… irregular — murmurou o Geômetra, seus dedos tremendo levemente enquanto tentava recalcular sua estratégia. — Você alterou as próprias regras do jogo.

— Não alterei regra alguma — corrigiu o Mago gentilmente. — Apenas lembrei às águas de sua verdadeira natureza. Elas nunca foram feitas para serem contidas, Geômetra. Seu destino é fluir, transformar, renovar.

O Geômetra observava, com uma mistura de fascínio e horror, enquanto seu cuidadoso planejamento era gradualmente desfeito pela Maré das Lembranças. Era como se o próprio tempo estivesse sendo reescrito no tabuleiro, com as águas retornando a um estado primordial de fluidez pura.

— Você não entende o que está fazendo — advertiu o Geômetra, sua voz agora carregada de urgência. — Sem estrutura, sem forma, o caos reinará. O equilíbrio que você tanto preza será destruído.

O Mago balançou a cabeça suavemente.

— O verdadeiro equilíbrio não está na rigidez imutável, mas na dança eterna entre ordem e caos, forma e fluxo, permanência e mudança. É isso que você nunca compreendeu, meu velho adversário.

E enquanto falava, o Mago continuava a guiar a Maré das Lembranças através do tabuleiro, restaurando a fluidez natural das correntes, dissolvendo as barreiras geométricas uma a uma. O Geômetra, pela primeira vez em incontáveis eras, encontrava-se sem resposta imediata, sua estratégia perfeita desmoronando diante de seus olhos.

O Hexagrama Rachado
O Hexagrama Rachado

O Hexagrama Rachado

A disputa atingiu seu ápice quando ambos os dados colidem em um cerco mútuo. O tabuleiro Qí Pán vibrava com energia contida, as correntes cristalinas agitando-se violentamente sob a superfície. O ar no Bosque das Correntes Celestiais tornara-se denso, carregado de magia ancestral, e até mesmo as árvores luminescentes pareciam curvar-se em direção ao duelo, como espectadores ansiosos.

O Geômetra Sombrio, recuperando-se da surpresa causada pela Maré das Lembranças, havia adaptado sua estratégia. Seus movimentos, antes puramente matemáticos, agora incorporavam um elemento de imprevisibilidade, como se tivesse aprendido, relutantemente, uma lição com seu adversário.

— Você me surpreendeu, Mago — admitiu o Geômetra, seus olhos brilhando intensamente sob o capuz. — Não esperava que recorresse a técnicas tão… antigas.

— Às vezes, precisamos olhar para o passado para encontrar o caminho para o futuro — respondeu o Mago, observando atentamente o novo padrão que se formava no tabuleiro.

O Geômetra posicionou seu próximo Hēi Zǐ com um movimento preciso, completando uma formação complexa que cercava parcialmente o território do Mago.

— Sua Maré das Lembranças é impressionante, mas ainda depende das leis fundamentais da forma — comentou o Geômetra. — E ninguém compreende a forma melhor do que eu.

O Mago sorriu, reconhecendo a verdade nas palavras de seu oponente.

— E ninguém compreende o fluxo melhor do que eu — respondeu, posicionando seu Bái Zǐ em uma intersecção que, à primeira vista, parecia desconectada de sua estratégia anterior.

No momento em que os dois Dados Mestres foram posicionados, algo extraordinário aconteceu. As energias conflitantes dos dois mestres, em vez de se anularem, começaram a ressoar em harmonia. O tabuleiro brilhou intensamente em azul e ouro, cores que se entrelaçavam como dançarinos em perfeita sincronia.

— O que está acontecendo? — murmurou o Geômetra, sua voz normalmente controlada traindo espanto.

O Mago das Águas Profundas observava o fenômeno com uma mistura de admiração e preocupação.

— Nossas energias… estão se equilibrando — respondeu, sua voz quase um sussurro. — Criando algo que não via há milênios.

Entre os dois oponentes, emergindo do próprio tabuleiro, uma nova forma começou a se materializar: um Hexagrama Vivo, pulsando com luz própria, suas linhas alternando entre o azul profundo das águas do Mago e o dourado geométrico do Geômetra.

— O Hexagrama Vivo — reconheceu o Geômetra, sua voz agora carregada de reverência. — O símbolo proibido desde a Primeira Era dos Encantamentos.

O Hexagrama pulsava entre os dois oponentes como um coração místico, cada batida enviando ondas de energia que reverberavam por todo o Bosque das Correntes Celestiais. Era como se o próprio tempo respirasse através daquele símbolo ancestral.

— Sabe o que isso significa, não sabe? — perguntou o Mago, seus olhos fixos no Hexagrama.

O Geômetra assentiu lentamente.

— Equilíbrio absoluto entre caos e ordem — respondeu, sua voz agora desprovida de sua usual frieza calculista. — A união perfeita entre fluxo e forma.

— Algo que nenhum de nós poderia criar sozinho — completou o Mago. — Apenas juntos, como contrapontos em perfeita harmonia.

O Hexagrama continuava a crescer, suas linhas se expandindo para além do tabuleiro, começando a entrelaçar-se com as próprias raízes do Bosque das Correntes Celestiais. Onde tocava, a realidade parecia dobrar-se sobre si mesma, criando reflexos e ecos que se multiplicavam infinitamente.

— É magnífico — murmurou o Geômetra, e por um momento, o Mago vislumbrou no rosto de seu adversário algo que nunca havia visto antes: puro deslumbramento, livre das amarras da lógica fria.

— E perigoso — advertiu o Mago. — O Hexagrama Vivo foi proibido por uma razão. Ele representa um poder que transcende as leis naturais, um equilíbrio tão perfeito que pode desestabilizar a própria estrutura da realidade.

Como para confirmar suas palavras, o solo sob seus pés começou a tremer. As águas do tabuleiro agitavam-se violentamente, e rachaduras começaram a se formar nas colunas do Templo das Correntes Eternas. O Hexagrama, agora pulsando com intensidade quase insuportável, emitia um zumbido que reverberava nos ossos dos dois mestres.

— O que fizemos? — perguntou o Geômetra, observando com crescente alarme as manifestações físicas do desequilíbrio que haviam criado.

O Mago das Águas Profundas fechou os olhos por um momento, como se escutasse uma voz distante.

— Criamos perfeição — respondeu finalmente, abrindo os olhos. — E a perfeição, em um mundo imperfeito, é uma anomalia que a realidade busca corrigir.

O Hexagrama Vivo, agora brilhando com a intensidade de um pequeno sol, começou a rachar em seu centro. Linhas de fratura, finas como fios de cabelo, espalhavam-se de seu núcleo para as extremidades, como se a própria estrutura do símbolo não pudesse conter o poder que emanava.

— Ele está se quebrando — observou o Geômetra, uma nota de pânico em sua voz usualmente controlada. — O Hexagrama Rachado… as lendas diziam que sua manifestação precedeu o Cataclismo da Primeira Era.

O Mago assentiu gravemente.

— E agora entendemos por quê. O equilíbrio perfeito não pode ser sustentado em um universo que, por sua própria natureza, está em constante fluxo e transformação.

Enquanto falavam, o Hexagrama continuava a rachar, cada nova fratura liberando rajadas de energia pura que sacudiam o Bosque das Correntes Celestiais. Era como se o próprio tecido da realidade estivesse sendo rasgado por aquele símbolo de perfeição impossível.

A Escolha
A Escolha

A Escolha

Ambos os personagens compreendem: continuar jogando destruirá o próprio Bosque das Correntes Celestiais. O Hexagrama Rachado, agora pulsando erraticamente, emitia ondas de energia que distorciam a realidade ao seu redor. Árvores milenares se curvavam como juncos ao vento, e as águas do Rio de Jade se erguiam em colunas impossíveis que desafiavam a gravidade.

O Mago das Águas Profundas e o Geômetra Sombrio se encontraram no olho daquela tempestade mágica, seus olhares se cruzando sobre o tabuleiro Qí Pán que agora parecia insignificante diante do poder que haviam desencadeado.

— Precisamos fazer algo — disse o Mago, sua voz quase inaudível sob o rugido da energia liberada pelo Hexagrama. — Ou perderemos não apenas o Bosque, mas todo o Reino dos Quatro Cantos do Mundo.

O Geômetra observava o caos ao seu redor, seu rosto uma máscara de conflito interno. Para alguém que dedicara sua existência à busca da ordem perfeita, o espetáculo de destruição causado pelo símbolo de equilíbrio absoluto era uma ironia cruel.

— O que sugere? — perguntou finalmente, seus olhos voltando-se para o Mago. — Mesmo combinando nossos poderes, não podemos simplesmente desfazer o Hexagrama. Ele existe agora como uma entidade própria.

O Mago fechou os olhos por um momento, como se consultasse as próprias águas em busca de sabedoria.

— Não podemos desfazê-lo — concordou, abrindo os olhos novamente. — Mas podemos direcioná-lo, canalizá-lo. Como um rio que transborda, precisamos criar um novo curso para sua energia.

— E como faríamos isso? — indagou o Geômetra, genuinamente curioso.

— Precisamos recuar — respondeu o Mago. — Ambos. Abandonar nossas posições, nossas estratégias. Deixar o tabuleiro vazio para que o Hexagrama possa se estabilizar sem nossa interferência.

O Geômetra encarou o Mago com incredulidade.

— Está sugerindo que abandonemos o duelo? Depois de tudo que investimos nele?

— Estou sugerindo que salvemos este mundo — corrigiu o Mago gentilmente. — Algumas batalhas não podem ser vencidas, apenas transcendidas.

O Geômetra ficou em silêncio por longos momentos, seu olhar alternando entre o Hexagrama Rachado e o rosto sereno do Mago. Finalmente, com um suspiro que parecia carregar o peso de eras, ele assentiu.

— Sempre acreditei que a rigidez era força — admitiu, sua voz surpreendentemente suave. — Que a imutabilidade era perfeição. Talvez… talvez haja sabedoria em saber quando dobrar-se.

Com essas palavras, o Geômetra Sombrio fez algo que jamais havia feito em todos os ciclos de sua existência: recuou. Com um gesto deliberado, ele retirou seu último Hēi Zǐ do tabuleiro, quebrando sua própria rigidez por uma fração de segundo.

O efeito foi imediato. Uma parte da energia caótica do Hexagrama pareceu acalmar-se, como uma tempestade que começa a perder força. Ainda assim, o símbolo continuava a pulsar perigosamente, suas rachaduras emitindo feixes de luz que cortavam o ar como lâminas.

— Sua vez, Mago — disse o Geômetra, seus olhos fixos no fenômeno que haviam criado juntos.

O Mago das Águas Profundas assentiu solenemente. Com um movimento fluido, ele ergueu as mãos sobre o tabuleiro e começou a entoar palavras em uma língua antiga, mais velha que o próprio tempo. As águas do Qí Pán responderam ao seu chamado, erguendo-se em uma maré final que envolveu o Hexagrama Rachado.

— Não estou destruindo-o — explicou o Mago, vendo a expressão questionadora do Geômetra. — Estou selando-o. Usando a energia aquática para conter seu poder, para que possa se estabilizar naturalmente com o tempo.

A maré cresceu, envolvendo completamente o Hexagrama em um casulo de água cristalina que brilhava com luz própria. Lentamente, o zumbido ensurdecedor começou a diminuir, e as distorções na realidade ao redor foram se acalmando.

— Está funcionando — observou o Geômetra, uma nota de admiração em sua voz.

— Por enquanto — respondeu o Mago, concentração evidente em seu rosto enquanto mantinha o selo aquático. — Mas não durará para sempre. O Hexagrama é poderoso demais para ser contido permanentemente.

— Então o que acontecerá? — perguntou o Geômetra.

O Mago sorriu, um sorriso cansado mas sereno.

— O que sempre acontece, meu velho adversário. Mudança. Transformação. O fluxo contínuo da existência.

As Marcas Eternas
As Marcas Eternas

As Marcas Eternas

À medida que o selo aquático do Mago estabilizava o Hexagrama Rachado, uma calma sobrenatural começou a descer sobre o Bosque das Correntes Celestiais. As árvores voltaram a suas posições naturais, as águas do Rio de Jade acalmaram-se, e até mesmo o ar parecia mais leve, como após uma tempestade purificadora.

O Mago das Águas Profundas e o Geômetra Sombrio permaneceram em silêncio por longos momentos, observando o tabuleiro Qí Pán onde seu duelo épico havia se desenrolado. O Hexagrama, agora contido pelo selo aquático, brilhava suavemente, suas rachaduras seladas temporariamente pela magia do Mago.

— O que acontecerá agora? — perguntou finalmente o Geômetra, sua voz desprovida da usual arrogância.

O Mago suspirou, um som que lembrava o murmúrio distante de um riacho.

— Devemos partir — respondeu. — Nossa presença combinada mantém o Hexagrama ativo. Separados, ele gradualmente se estabilizará, tornando-se parte do tecido natural deste lugar.

O Geômetra assentiu lentamente, compreendendo a lógica por trás das palavras do Mago.

— Então este duelo termina sem vencedor — constatou, um leve tom de decepção em sua voz.

O Mago sorriu, seus olhos refletindo a sabedoria de incontáveis eras.

— Depende do que você considera vitória, Geômetra. Salvamos o Bosque das Correntes Celestiais. Preservamos o equilíbrio do Reino dos Quatro Cantos do Mundo. Em minha perspectiva, isso é uma vitória maior do que qualquer triunfo pessoal.

O Geômetra considerou essas palavras por um momento, seu olhar perdido nas profundezas do tabuleiro.

— Talvez você esteja certo — admitiu finalmente. — Há… sabedoria em suas palavras que não posso negar.

— E há beleza na precisão de suas formas que sempre admirei — respondeu o Mago, surpreendendo seu adversário. — Somos contrapontos, Geômetra. Não inimigos. Como o dia e a noite, ambos necessários para a completude do ciclo.

Um sorriso hesitante, quase imperceptível, desenhou-se nos lábios do Geômetra.

— Contrapontos — repetiu, como se testasse o sabor da palavra. — Uma perspectiva interessante.

O Mago estendeu a mão sobre o tabuleiro, um gesto de respeito e reconhecimento.

— Até nosso próximo encontro, então. Quando o tempo for propício e o equilíbrio novamente precisar ser testado.

Após um momento de hesitação, o Geômetra aceitou o gesto, seus dedos azulados tocando brevemente os do Mago.

— Até lá, guardarei as lições deste duelo — respondeu, inclinando levemente a cabeça.

E assim, com a dignidade de seres que transcendiam o tempo comum, ambos começaram a se afastar do tabuleiro. O Geômetra Sombrio recuou para as sombras do Bosque, sua figura gradualmente se dissolvendo na escuridão até que apenas o brilho de seus olhos permaneceu visível por um instante, antes de desaparecer completamente.

O Mago das Águas Profundas caminhou em direção às margens do Rio de Jade, suas vestes ondulando como as próprias águas. Antes de partir, ele se virou uma última vez para o tabuleiro Qí Pán, onde o Hexagrama selado continuava a brilhar suavemente.

— Não é o poder que define a vitória — murmurou para si mesmo, suas palavras carregadas pelo vento para os confins do Bosque. — É o entendimento entre a pedra e o rio.

Com essas palavras, o Mago mergulhou nas águas do Rio de Jade, sua forma dissolvendo-se em milhares de gotículas luminosas que foram carregadas pela corrente, desaparecendo nas brumas do tempo.

Ambos desaparecem nas brumas do tempo. Mas as marcas… ah, as marcas hexagonais continuam no Qí Pán (棋盤), como um lembrete aos próximos Controladores. O tabuleiro, agora aparentemente vazio, guardava em sua superfície cristalina os padrões sutis do duelo épico que ali se desenrolara. Onde os Dados Mestres haviam tocado, pequenas marcas hexagonais permaneciam, brilhando suavemente sob a luz filtrada pelas copas das árvores do Bosque.

Essas marcas não eram meras cicatrizes na superfície do tabuleiro; eram memórias vivas, impressões energéticas do equilíbrio perfeito que havia sido momentaneamente alcançado. Para os olhos comuns, pareciam apenas reflexos da luz nas águas cristalinas. Mas para aqueles com a sensibilidade dos verdadeiros Controladores, contavam a história completa do duelo entre o fluxo e a forma, entre a adaptabilidade e a rigidez.

E assim permaneceriam, por eras incontáveis, como um lembrete silencioso da lição mais importante que o duelo havia ensinado:

“Não é o poder que define a vitória. É o entendimento entre a pedra e o rio.”

Uma verdade tão antiga quanto o próprio tempo, gravada nas águas eternas do Qí Pán, aguardando pacientemente o momento em que novos Controladores viriam para aprender suas lições e, talvez, acrescentar suas próprias marcas à tapeçaria infinita do destino.

Caixa Combo QU4DRI® #181 — Batalha nas Correntes
Combo QU4DRI® #181 — Batalha nas Correntes
spot_img

lançamentos e novidades

explore mais